31 de maio de 2013

PROPRIEDADE FAMILIAR
 
  
 

Acho que estou de volta!!! Não muito pra colocar meus pensamentos pra fora, mas muito pra colocar aqui, os pensamentos que ultimamente coloco pra dentro! Beijos!
 
Por Guilherme Lima Moura

Lembra daquele trio de Vamos, filho?! Pois é. Dia desses, nos encontramos novamente. Não posso dizer que somos amigos, mas nos esbarramos de vez em quando e nos falamos amigavelmente. Dessa feita, estávamos várias famílias curtindo um dia de lazer em um clube de campo muito agradável. Quando fui à beira da piscina observar meus filhos que brincavam em meio a uma multidão de crianças, parou ao meu lado aquele rapaz. “É muita criança, né?”, comentou sem tirar os olhos da meninada e, ante à minha afirmativa, acrescentou: “eu estou é querendo achar o meu!”.

Olhei para ele e sorri naquele momento que, embora não tenha durado mais que um ou dois segundos, tocou-me profundamente. Sem tirar os olhos da piscina, ao grito de “Pai!” ele partiu em direção ao aceno que se destacava, dentre as crianças divertidamente aglomeradas n’água. Foi ao encontro daquele que, tendo tornado-se órfão ainda bebê, havia encontrado, no jovem noivo de sua mãe, o pai.

Não pude evitar aquela mesma emoção do episódio anterior. Mais uma vez no gesto simples que normalmente passaria despercebido por sua trivialidade, revelava-se a beleza da naturalidade com a qual se realizam pai e filho.

Enquanto a cena seguia seu curso ante à minha silenciosa presença, lembrei-me imediatamente de uma outra, vista na TV, em que uma jovem senhora falava sobre suas dificuldades para engravidar. À certa altura, afirmava ela: “Eu pensei em adotar, mas eu queria ter meu próprio filho”, numa referência à sua frustração pela impossibilidade de uma gestação.

Naquele breve instante, fiquei pensando sobre a propriedade da filiação. Sobre o que estamos dizendo quando chamamos nossos filhos de “nossos”. Será apropriado ter um filho ou ter um filho consiste em uma apropriação? Serão nossos filhos, afinal, propriedades nossas? Seria a gravidez um tipo de “sonho do filho próprio”? O que faz um filho ser de alguém?

Puxei pela memória alguns significados da palavra “propriedade”: bem, domínio, característica, atributo, qualidade. Achei estranho porque todos eles evocam um objeto sob posse ou um predicado daquele que possui. Como pode a relação de filiação ser entendida desta forma?

Foi quando recordei de tantos filhos que abandonam os pais e de tantos pais que abandonam os filhos. Não me refiro aos casos espetaculares que surgem de vez em quando na grande mídia. Vieram-me à mente os chamados “infortúnios ocultos”, alguns dos quais ao alcance de minhas mãos. Tão perto, tão ao redor, por tanto canto.

Lembrei-me de um significado de “próprio”: adequado. O próprio é o adequado, o que se encaixa, o que se acomoda. “O côncavo e o convexo”. E adequado significa, por sua vez, natural. Incrível! O adequado é o natural. No jogo dos significados, dei-me conta de que duas pessoas são próprias uma da outra quando se modelam de tal maneira que, pelo ajuste que fazem em si mesmas, formam uma com a outra uma unidade, sem que com isso haja proprietário ou propriedade.

A modelagem que fazemos em nós mesmos é a atitude adotiva; o encaixe e a unidade dela decorrente são a filiação. A respeito disso nada podem oferecer os laços sanguíneos.

Então, é só na atitude adotiva, ou seja, na construção de uma relação amorosa, que pais e filhos tornam-se − não propriedades −, mas próprios uns dos outros. Eu e meus filhos somos uns dos outros porque nos encaixamos afetivamente; porque nos acoplamos de uma forma tão intensa e única que até hoje não entendo como cheguei aos trinta e pouco sem a presença deles.

A propriedade de pais e filhos é o afeto. É pela adoção que tenho meus próprios filhos.

No burburinho inconfundível da brincadeira de criança, passeei meus olhos até encontrar meus filhos que se divertiam a valer. Bem próximo, o jovem pai brincava com o seu menino. Olhos marejados, felicitei-me pela propriedade das belíssimas famílias que a adoção nos contemplou. E você? Já realizou o seu sonho do filho próprio?!

Endereço da fonte:
http://ne10.uol.com.br/coluna/atitude-adotiva/noticia/2012/12/28/propriedade-familiar-389761.php

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