12 de outubro de 2011

HUMILDADE


Não sei se meu pai aos 84 anos  lembraria do que me disse, quando aos 19 anos e hoje com 33, retornei aqui para o Rio de Janeiro para estudar. Ele disse  que eu fosse humilde. Mais uma de meu pai!!! Mais uma que eu não entendi na hora e fui compreender anos, muitos anos depois. O principal motivo que distanciou minha compreensão foi o de sermos pobres e de eu vir estudar aqui no Rio em condições bem simples, com dinheiro juntadinho, contadinho e um medo terrível de como iria conseguir me sustentar até o final. Últimamente tenho lido muito Rubem Alves. Ele escreve as coisas de minha alma! Lendo sobre humildade e querendo saber mais sobre essa simplicidade de vida que não é tão simples, me deparei com o  texto dele "Pastoreio". Texto belíssimo que suprimi pois é um tanto grande para o tamanho das postagens que considero razoável para o meu blog e destaquei algumas idéias que falaram à minha alma! Vale ler na íntegra:
http://www.rubemalves.com.br/pastoreio.htm

"...Eu não tenho a felicidade do meu amigo Alberto Caeiro, que dizia que só vê direito quem não pensa. Disse mesmo que pensamento é doença dos olhos. Entendo e concordo. Bom seria olhar para os campos e os meus pensamentos serem só os campos. Nos campos há árvores, brisa, céu azul, nuvens, riachos, insetos, pássaros. Você, por acaso, já viu uma ansiedade andando pelos campos? Ou uma raiva navegando ao lado das nuvens? Ou um medo piando como os pássaros? Não. Essas coisas não existem nos campos. Elas só existem na cabeça. Assim, se os meus pensamentos fossem iguais ao que vejo, ouço, cheiro e sinto ao andar pelos campos, o meu mundo interior seria igual ao mundo exterior, e a minha mente teria a simplicidade e a calma da natureza. Eu teria a mesma felicidade que têm os deuses porque, como o meu companheiro me segredou num momento de excitação teológica, nos deuses o interior é igual ao exterior. Eles não possuem inconsciente. Por isso são felizes.

Esse felicidade eu não tenho. Vejo e penso. Lembrei-me do conselho de Jesus, de que deveríamos olhar para flores do campo.

Olhei e elas começaram a falar. O que disseram? Disseram o que dizem sempre mesmo quando eu não estou lá. “Os seus olhos estão contemplando o que tem acontecido por milhares de anos. Por milhares de anos assim temos florescido. Por outros milhares de anos assim continuaremos a florescer. Muitos outros rebanhos perturbados como o seu já passaram por aqui. Mas deles não temos mais memória. Passaram e nunca mais voltaram. Desapareceram no Rio do Tempo. O Rio do Tempo faz todas as coisas desaparecerem. Por isso nada é importante. Nossas ansiedades também estão destinadas ao Rio. Também elas desaparecerão em suas águas. O seu sofrimento se deve a isso, que você se sente importante demais, que você não presta atenção na voz do Rio. Quando nos sentimos importantes nós ficamos grandes demais. E junto com o tamanho da nossa importância cresce também o tamanho da nossa dor. O Rio nos torna pequenos e humildes. Quando isso acontece a nossa dor fica menor. Se você ficar pequeno e humilde como nós, você perceberá que somos parte de uma grande sinfonia. Cada capim, cada regato, cada nuvem, cada coruja, cada pessoa é parte de uma Harmonia Universal. Quem disse isso foi Jesus. Ele disse que para nos livrarmos da ansiedade é preciso ficar humildes como os pássaros e as flores.

Aí o meu amigo Alberto Caeiro tomou a palavra e disse: “Quando vier a Primavera, se eu já estiver morto, as flores florirão da mesma maneira e as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. Sinto uma alegria enorme ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.“

Eu fiquei assustado com essas palavras mas ele me tranqüilizou. “Se você se julgar muito importante, então tudo dependerá de você. Mas se você se sentir humilde, então tudo dependerá de algo maior que você. Você estará, finalmente, nos braços de um Pai ou no colo de uma Mãe. E quem está nos braços do Pai ou no colo da Mãe pode dormir em paz...“

Aí as flores do capim retomaram a palavra.

“O Inverno vem. Com ele o frio e a seca. Parecerá que eu morri. Mas minhas sementes já foram espalhadas. A Primavera vai voltar, e com ela a alegria das crianças e do brinquedo. Está lá nas Sagradas Escrituras: “Lança o teu pão sobre as águas porque depois de muitos dias o encontrarás.“ Coisa de doido. Pão lançado sobre as águas some, não volta jamais. Mas é assim que acontece no Rio de Tempo. Ele é circular. O que foi perdido retorna. O que vem vindo é o que já foi.
Olhei em volta e vi minhas ovelhas mansamente deitadas sob uma árvore...

(Transparências da eternidade, Verus, 2002)

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