9 de novembro de 2010

EU ME DESILUDI!


Esta frase já atravessou meu canal auditivo uma centena de vezes. Normalmente entonada de maneira cansada por pessoas que, primeiro, perderam as esperanças – no plural mesmo – e, por fim, a esperança – no singular mesmo –, a última que morre, mas a primeira que agoniza.

Eu nunca me desiludo! Sabe por que? Por que nunca me iludo! Não (me) superestimo, nem (me) subestimo. Não confundo possibilidade com probabilidade. Nem limite com limitação. E muito menos qualidades e defeitos com características. Não construo expectativas irreais. O real é o ideal.

Não confundo o livre-arbítrio do homem e a vontade de Deus com a vontade do homem e o livre-arbítrio de Deus. Não confundo uma queimação estomacal com o fogo do Espírito. Nem os espíritos de porco com os espíritos nos porcos (MAT 8.31; MAR 5.12; LUC 8.32).

Acredito no acaso, no imprevisto, em acidentes, em incidentes e em coincidências. Acredito também na teoria do caos e na excepcionalidade do comum. Não creio que um mundo mais humano seja um mundo melhor. E creio em Deus: amo o Pai (LUC 10.27), aprendo com o Cristo (MAT 23.8; LUC 6.40; JOÃO 1.49; 13.13-14) e sou guiado pelo Espírito (ROM 8.14).

Não sou irresponsavelmente pessimista como Murphy. Também não sou idiotamente otimista como Pangloss. Tenho medo; mas o medo não me tem.

Sei que a vida é um mar de rosas. A vida tem o cheiro, a beleza, a veludez e até o gosto (e, quem sabe, também o som das rosas), entretanto a vida também tem espinhos. Não me considero especial, outras pessoas também passam por problemas. A vida é boa, o ser humano é que não presta. Mesmo que a vida fosse uma causa perdida (Abujamra), ainda sim seria preferível à alternativa (Gabriel Montalban).

Sei que pecar é melodioso, bonito, cheiroso, gostoso e prazeroso, caso contrário, nunca pecaria. No entanto, o pecado é anti-musical, é uma caricatura do cão chupando manga, tem um bodum insuportável, causa náuseas desentranháveis e dói, dói, dói. Por isso, não peco habitualmente.

Sei que toda satisfação deve ser provisória, pois não há alegria crescente sem que haja insatisfação permanente. Motivação, coragem, objetivos. Meio e oportunidades. Trabalho. Feliz sempre, satisfeito nunca.

Não perco meu tempo na quixoteana tarefa de combater moinhos de vento (Cervantes). Nem sempre Deus vai abrir o mar para mim (ÊXO 14.1-31), nem sempre Deus me fará andar sobre as águas (MAT 14.22-33), mas sempre poderei atravessar a nado (ATOS 27.42-44; II CO 11.25). Reconhecendo que algumas vezes sei terei que desistir de atravessar (EZE 47.1-5).

Sou um homem antiquado. Considero caminhar mais legal que chegar. Construir me dá mais prazer que inaugurar. Prefiro lutar. A derrota é solidariamente amarga, e a vitória é solitariamente chata. Quero chegar ao fim (tanto como final quanto como finalidade) e dizer: Combati bons combates (I TI 4.7A).

Estou chegando ao fim. Concordo que “nada há mais feio que dar pernas longuíssimas a idéias brevíssimas” (Machado de Assis), mas não posso terminar sem deixar com vocês uma última palavra, não um conselho, mas a moral da história: “Eis o segredo da vida: inspire, expire, e, no mais, improvise” (Veríssimo). Mas não se iluda: Seu último dia fácil foi ontem, prepare-se para o pior para não viver o pior e que Deus o ajude!

AMPLEXUS FRATERNUS ET OSCULUS CHRISTIANUS DO SEU PASTOR

Dercinei Figueiredo Pinto

P.S.: Dercinei foi meu professor no Instituto de Educação Religiosa-RJ


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